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AQUÁRIUSUL

Sou daqui deste povo que cheira a mar e sabe a fado

AQUÁRIUSUL

Sou daqui deste povo que cheira a mar e sabe a fado

A Palavra

Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes, sejais unidos, num mesmo sentido, e num mesmo parecer.

 

Primeira epístola de Paulo aos Coríntios – 1;10

 

Caía mansamente a neblina sob o sol da manhã, refrescando cada folha, cada flor; gotas de orvalho contendo o mundo, humedeciam o solo pleno de vida e vigor latente. Aos poucos os ruídos noturnos emudeciam e os seus habitantes retiravam-se para o calor e segurança de suas tocas. As aves chilreavam numa algazarra sinfónica conduzidas pela batuta de maestro anónimo. No chão o restolho era revolvido e o vento espalhava-o num manto de cor e forma. Ao longe, na planície, os animais movimentavam-se em manadas seguras, procurando a melhor erva verde e tenra que pela manhã estava fresca. Por entre colinas e montes vestidas de verde, os filhos de Zéfiro brincavam numa correria ondulante, fazendo estremecer as fadinhas das flores que olhavam para eles com ar reprovador. Sorriam os elfos que a tudo observavam com olhar brilhante. Cintilava de vida e movimento a natureza.

 

Ao redor de uma fogueira, um grupo de homens, arrumava os seus pertences para se porem ao caminho em mais um dia de jornada. Lentamente reuniram-se para a oração de graças da manhã. O seu olhar era límpido e os seus pensamentos em reverência adoraram o Senhor dos Mundos.

 

Senhor, a Ti pertenço,

Que a minha vida seja uma prece de gratidão constante a Ti,

Aceita pela Tua bondade o meu agradecimento

E dá-me por este dia o auxílio de Tua força.

Ámen

 

Serenidade envolvia o grupo. Dirigiam-se para a costa e até já podiam ouvir o bramir do oceano à distância. O seu destino era a ilha Branca e esperavam receber de Neptuno o seu favor e escolta de ondinas para a travessia. Um grupo de centauros acompanhava-os a distância curta, como que a montar guarda, precioso era o grupo de homens vestidos de branco e de olhar secular. Iam prestar auxílio a uma comunidade que se encontrava em dissensão por causa do modo como a Palavra Sagrada haveria de ser transmitida, e esta postura estava a dividi-los e a criar sombras escuras que os atormentava e alimentava ainda mais a divisão. O querer saber melhor e a falta de clareza espiritual estava a ofuscá-los. Após, tomariam a jornada marítima para o seu destino, a ilha Branca. A chegada ao pequeno burgo foi saudada efusivamente; depois de um curto descanso dirigiram-se para a sala das devoções. Reunida a assembleia e após curta oração de pedido de auxílio, o ancião do grupo falou:

 

- Caríssimos, a Palavra do Senhor segue por muitos caminhos, porque muitos são os caminhos do homem. É dever que adoremos o Altíssimo sem quaisquer dogmas ou pretensas sabedorias e interpretações, se o fizerdes de espírito aberto, certamente a Sua força vos trará auxílio, a Sua luz iluminará o caminho e o Seu Amor será bálsamo espiritual. Nem todos os homens estão preparados, pela sua formação, a receber a Palavra da mesma forma, então divulguem-na conforme o grau de evolução do ouvinte. Façam-no como servos do Senhor, simples e devotos e não como aqueles que repetem o que aprenderam com o cérebro e não ouvem a voz interior, a voz do espírito. Sede tolerantes, mas firmes na defesa da Palavra, lembrai-vos que a Verdade só a Deus pertence. Tudo o que o ser humano conhece e divulga está sujeito ao espaço e ao tempo, à mutação dos conceitos, e à evolução do conhecimento que ele domina no momento e que moldam esses mesmos conceitos. O nosso saber é imperfeito e só nas nossas peregrinações através da Vida ele se aperfeiçoará, por isso, tolerância e humildade são aliados da firmeza. Venerai o Altíssimo, porque a Palavra é una com Ele; no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Procurem a Verdade em espírito e o vosso intelecto compreenderá.

Dividir a Palavra é enfraquece-la, não o façam… não o façam!

 

Em silêncio o ancião dirigiu-se para o seu assento e, visivelmente abatido, recostou-se. Na sala nem um movimento se fazia sentir, os semblantes denotavam o efeito das palavras. No ar as formas de pensamento eram confusas, crispadas, mas também de aceitação… e tudo isto o ancião sentia. A assembleia foi fechada pelo sacerdote da comunidade que com voz pesarosa disse:

 

- Cometemos o pecado da estultícia, não estivemos alerta e pretendemos saber melhor que o nosso próximo, com isso, olhamos para nós e esquecemo-nos de pedir auxílio aos guias, fomos vaidosos ao querer dominar o saber que o nosso intelecto nos proporcionava e surdos aos avisos da nossa voz interior, com boa intenção é verdade, mas com orgulho e intolerância atuamos, agora vede o resultado, divisão, antagonismos …

 

Após a oração de agradecimento, o grupo dirigiu-se para o porto onde um barco de velas vermelhas os esperava, o vento soprava de feição prometendo uma viagem calma. Lentamente se afastou do porto seguro a embarcação, desfraldando as velas ao sopro de Éolo; o ancião na ponte olhava para as pessoas que no cais acenavam em despedida e a tristeza tomou conta do seu espírito. Quantos daqueles se iriam perder na voragem da intolerância e mesmo na melhor boa vontade para difundir a Palavra, fá-lo-iam deteriorando o Amor e alimentando a arrogância.

 

O seu olhar ergueu-se aos céus sem nuvens e um rosto feminino sorriu animando-lhe o espírito, Gaia, a Senhora da Terra, assim o alentava. Pouco a pouco a nave se fundiu no horizonte…

 

Alma Lusa