Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

AQUÁRIUSUL

Sou daqui deste povo que cheira a mar e sabe a fado

AQUÁRIUSUL

Sou daqui deste povo que cheira a mar e sabe a fado

Tróia: o cavalo de Tróia

 

Do passado ecoam vozes que clamam por verdade!
 
Alma Lusa
 
Ao raiar do dia a corneta do guardião da torre soou jubilosamente. Que seria aquilo? Todos ficaram impressionados. Seria alarme ou sinal de regozijo? Novamente soou a corneta, emitindo sons jubilosos cada vez mais acentuados que se espalhavam sobre a cidade. Haveria um ataque? Não viria resposta inimiga a esse som de desafio? Todos precipitaram-se às torres, escalaram telhados e muralhas. Kassandra foi uma das primeiras. O mar estava calmo e solitário; liso como espelho; livre de qualquer embarcação. Onde estariam as naus gregas? E o acampamento? Ainda podia-se ver parte das armas espalhadas: os aríetes, as pedras, as máquinas projectoras, porém, pareciam imprestáveis? O que seria aquilo na praia? Um animal gigantesco? Parecia um quadrúpede rígido; alto e desajeitado. A imagem de um cavalo grego. Kassandra sentiu-se inquieta e assustada ao avistá-lo, entretanto, os outros estavam cheios de júbilo. Os portões da cidade abriram-se e o povo saiu ao encontro do sol. Liberdade após um peso de dez anos de guerra. Um presente dos deuses!
Rejubilando, fora de si de tanta felicidade, os homens pulavam como crianças e abraçavam-se. Apenas alguns mais sensatos, entre eles, Hektor e Priamos, sacudiam a cabeça. No entanto, o povo regozijava-se de alegria. Foram até à praia e passaram pelo acampamento abandonado, onde encontraram pão e vinho em quantidade. Contentes e gratos apenas viviam o momento. Subitamente uma voz fez-se ouvir na multidão.
-Vamos levar o cavalo para dentro da fortaleza.
Escalaram-no por meio de escadas, pois era muito alto, e o enfeitaram com grinaldas de flores como a um animal que vai para o sacrifício.
Então uma voz aguda, ameaçadora, gritou da torre:
-Ai de vós! Ai de ti, Tróia! Não vos deixeis tentar; eu vos previno. Reduzi-o a cinzas.
Fez-se silêncio. Depois ergueu-se um murmúrio, um vozerio de palavras amargas, e risadas estridentes de escárnio. Depois, tudo emudeceu novamente. O animal foi colocado sobre rolos, a fim de que pudesse ser movimentado com maior facilidade.
Soou novo grito de advertência:
-Ai de ti Tróia! Eu vos previno! Queimai-o!
Priamos, por fim, ordenou que deixassem o animal onde estava; por conseguinte, o povo retirou-se para o interior da cidade, mas praguejando e amaldiçoando Kassandra.
 
O povo de Tróia movimentava-se o dia todo pelas ruas, gritando em alegre exaltação. Coros em acção de graças eram recitados nos Templos. Lançavam tochas em chamas que pareciam pássaros. Flores eram lançadas pelas janelas. A alegria era geral.
Veio a noite. Os últimos raios vermelhos de sol ainda tingiam o ocidente e o mar no horizonte. As estrelas começavam a cintilar e sobre Tróia brilhava o esplendor de fogos festivos. O povo saiu pelo grande portão, desobedecendo as ordens de Priamos e as palavras de Kassandra. Assim o povo aproximou-se da praia, onde o cavalo, todo enfeitado, esperava. Gritaram de alegria e iniciaram uma dança selvagem em torno do cavalo. Em seguida a multidão regressou à cidade lentamente, puxando o gigantesco animal. (…)
 
Excerto do livro “Histórias de Tempos Passados”, editado pela editora Ordem do Graal.