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AQUÁRIUSUL

Sou daqui deste povo que cheira a mar e sabe a fado

AQUÁRIUSUL

Sou daqui deste povo que cheira a mar e sabe a fado

A lenda da moura de Faro

A azáfama era grande intramuros do castelo que emoldurava o azul da ria, separada do oceano por um cordão de areia dourada, lembrando a estes povos de origem árabe as paisagens da sua terra natal. Era Ibn Harun uma cidade portuária, próspera e muito bem guarnecida de muralhas, cidade importante do reino Al-Gharb e governado por um emir da dinastia almóada. Era este homem pai de uma bela donzela e de um menino que fazia a delícia de seus olhos, amaciando o comportamento guerreiro e rude, de quem está sujeito às leis da guerra e da governação.

 

No cimo da torre de menagem os vigias acompanhavam com olhar preocupado o serpentear das tropas cristãs, que dos lados da serra se aproximavam da cidade. As notícias que chegavam falavam de cidades e castelos que iam sendo tomadas com o avanço dos cristãos. Preparavam-se as defesas e quem podia sair da cidade tomava rumo para o reino de Marrocos, que outro caminho já não havia. Aos poucos os guerreiros lusos chegaram às portas do castelo e montaram arraial no largo que se expandia terra adentro, mais tarde chamado de S. Francisco. Eram fortes as defesas e forte também o desejo de defesa dos guerreiros almóadas. O teatro estava preparado para a confrontação. De um e de outro lado se preparavam as estratégias para a refrega que se avizinhava trágica.

 

Um jovem guerreiro cristão rondava as muralhas na procura de fraquezas destas quando viu a filha do emir debruçada nas ameias e de olhar fixo em si. Ficou tomado de amores o jovem pela beleza da moura e de tal modo foi correspondido que combinaram um encontro intramuros na noite seguinte. Com a ajuda de um guarda mouro da sua confiança, fez-se acompanhar a bela donzela de seu jovem irmão e abrindo os portões do castelo ali se encontraram. Votos de amor eterno e olhar enamorado entre ambos prometeram tomar votos de união, logo que a batalha terminasse. Quis o destino que naquele momento as tropas cristãs empreendessem uma surtida às muralhas, tomando de pânico o guarda mouro.

 

Convenceu o jovem oficial a bela donzela e seu irmão a acompanhá-lo para a segurança do arraial cristão. Nas suas costas o guarda mouro fechou os portões apressado e de pronto deu o alarme. Quando transpunham as portas do castelo, sob o abraço amigo do jovem, viu este, estarrecido, como a sua amada e o seu jovem irmão se desfaziam em fumo confundindo-se no ar fresco da noite. Desolado por semelhante imagem caiu em profundo desgosto o jovem, enquanto os combates decorriam junto às muralhas do castelo até à queda deste e entregue a el-rei Afonso III de Portugal.

 

No dia seguinte, caminhou o jovem enamorado até às portas onde se tinha dado o acontecimento fatídico, para ele incompreensível e inconsolável. Quando transpôs o portão viu um jovem assomar-se de um postigo na muralha e reconheceu o irmão de sua amada. Esperançoso perguntou:

 

- Que fazes aí? Onde está tua irmã?

Disse ansioso o jovem.

 

- Minha irmã e eu estamos encantados nestes muros.

Era triste o seu olhar, pálido o seu semblante.

 

-Quem vos fez semelhante ignomínia?

A voz alterosa mostrava a intenção de tomar justiça pela afronta.

 

-Meu pai, o emir. Soube através de seus espias dos amores de minha irmã convosco e de vosso encontro secreto e lançou-nos um encanto. Quando transpusermos os portões do castelo os nossos corpos transformam-se em fumo e intramuros deveremos viver.

 

-E até quando dura o encantamento?

Esperançosa era a intenção da pergunta que seu coração alimentava.

 

-Enquanto o Mundo for Mundo, aqui viveremos nestes muros. Épocas passarão e a lembrança de nosso infortúnio perdurará na lenda.

 

Desolado o jovem sentou-se entre os arcos dos portões, que mais tarde se chamaria Arco do Repouso. Num revés a sua vida tinha perdido o tino. Fixava com olhar vazio os soldados que corriam Vila-a-dentro a tomar posse da cidade, Ibn Harun, mais tarde chamada cristãmente de Faro, Santa Maria de Faro, ainda hoje assim denominada e tornada capital do reino do Algarve.

 

Com a tomada da cidade de Faro, no ano de 1249 por Afonso III, ficou o reino do Algarve definitivamente em mãos cristãs e a reconquista iniciada em 1143 por Afonso Henriques terminara, delineando as fronteiras do reino de Portugal, que com poucas alterações, ainda hoje se mantém. 

 

Romântica lenda que perdura nas tradições e lendas de Portugal!

 

Alma Lusa

A lenda da moura de Tavira

Serena era a manhã, desabrochava sobre as águas límpidas do rio que mansamente deslizavam para os braços do largo oceano. No cimo das muralhas, um vulto esbelto de mulher olhava fixamente o horizonte, onde o rio abraçava a ria, que de tão formosa seria de nome, Formosa. Os seus olhos negros denunciavam a origem moura, norte de África, terra quente. Era ela filha do Alcaide Aben Fabila, homem duro, habituado às lides da guerra e que há bem pouco tempo em contenda com os cristãos, sete cavaleiros tinham tombado às suas armas. Abeirou-se de sua filha e fitou o seu semblante triste e preocupado.

O seu arrojado empreendimento traria às portas do seu castelo o temível guerreiro cristão D. Paio Peres Correia, temido e valorizado por muitos. O sangue dos seus cavaleiros clamava da terra que era sua e as armas estavam adestradas para a contenda.

 

Minha filha, os cristãos em breve estarão às portas do castelo e a sua ferocidade em combate é por demais conhecida, não garanto que consigamos levar a nossa causa à vitória. As suas armas são por demais fortes e a sua causa alimenta o seu indómito espírito. Por força do meu conhecimento de feitiçaria vou encantar-te para que os cristãos a ti não possam chegar. Poderão ver-te no alto da torre de menagem, só na noite das festas do seu apóstolo, João, mas não poderão tocar-te, a não ser que, consigam escalar as pedras desta torre antes de o sol nascer. Empresa que considero impossível e pela graça de Alá, voltarei para o teu desencanto.

 

Ambos, em silêncio, numa comunhão espiritual de valores quedaram-se a olhar a paisagem que em breve não seria sua. Amava ele sua filha e saudoso estava de sua pátria. Os olhos marejados fixaram-se em seu pai, cujo rosto, marcado pelo tempo, denunciava a angústia e o sofrimento do momento, em sulcos vincado.

 

Meu pai, não te esquecerás de mim, volta e liberta-me do tormento em que vou ficar, quero rever as areias do meu País natal, o meu povo e o que me é querido, leva-me de volta para onde eu pertenço, para alegria do meu coração.

 

Os dias passaram e os defensores do castelo prepararam-se para a mais que certa tormenta que se avizinhava. Não precisaram esperar muito tempo e o castelo estava cercado pela tropa cristã. Reclamavam a terra que era sua e pediam alvíssaras para o rei de Portugal. A contenda ficou na memória do tempo, o castelo em mãos cristãs, e Aben Fabila… só pela morte não cumpriria a sua promessa! Nuvens passaram por cima da torre, as águas corriam para o mar, as pedras enegreciam…

 

Ao entardecer de certo dia, cavalgava D. Ramiro, nobre cavaleiro e valoroso em armas, para o castelo, beirando o rio e mirando os altos muros cujas ameias sobressaiam no alto da colina. Inquieto estava o seu cavalo, belo animal criado pelos campos da Lusitânia, o seu olhar rodeou a paisagem à procura de tal inquietação, o sol já se tinha recolhido e a lua peregrinava nos céus iluminando a paisagem num misto de sombras e luz. O seu olhar acompanhou a lua e quedou-se no alto da torre de menagem.

 

Que via ele? Um vulto de mulher, moura pelo seu trajar, límpidos olhos negros pediam auxílio, o seu coração bateu acelerado e o ímpeto levou-o a escalar as altas muralhas, que a ansiedade não lhe permitiu chegar às portas do castelo, ou fora o destino do encanto que tal ousadia criara? Mas, como tinha vaticinado Aben Fabila, a empresa prometia dificuldades e insucesso no seu empreendimento. Corajosamente e com os olhos postos na bela moura, cuja tristeza assim o encorajava, D. Ramiro trepava pedra a pedra subindo pela torre que parecia não ter fim… e não tinha! O tempo passou, a lua circulava pelos céus e iniciou o seu declínio, o vislumbre do amanhecer espreitou entre as serras no horizonte e as nuvens pararam em cima da torre cobrindo a bela moura, cujo olhar se encheu de lágrimas contemplando o arrojado cavaleiro que triste e surpreso via a bela mulher desaparecer para mais um ciclo do seu encanto, desespero e angústia alimentou o espírito do jovem cavaleiro.

 

Tornou-se D. Ramiro bravo no campo de batalha, desbaratando as hordas de mouros que contra si pelejavam, castelo após castelo caiam às suas armas, mas a bela moura, essa, alimentou o seu encanto e o seu amor nas entranhas do seu ser… Lenda que perdura nas tradições e lendas de Portugal.

 

Alma Lusa

Lenda de Egas Monis

 

Amanhecia sob o céu cinzento de Guimarães. O exército leonês tomava posições em redor do fortificado castelo, pressagiando um cerco longo. Na sua tenda, D. Afonso VII, rei de Leão e Castela, soberano do condado Portucalense, que agora cercava, olhava o colosso à sua frente e o movimento dos soldados nos adarves das muralhas, que pela sua largura mostrava a fortaleza das mesmas, a tomarem medidas defensivas, as fortes torres de ameias pontiagudas não davam mostras de serem derrubadas com facilidade, não se avizinhava uma empresa fácil.
 
Eram estes guerreiros comandados por um indomável infante, Afonso Henriques de seu nome, filho de D. Henrique de Borgonha, conde de Portucale e de D. Teresa, filha de D. Afonso VI, rei de Leão, devidamente educado por Egas Moniz na arte da guerra e da honra, treinado por homens duros, semeado no seu jovem espírito o chamado da terra que a tudo obriga e tudo pede, liberdade!
 
Este condado era uma fonte de preocupação para D. Afonso VII, que aspirava ser imperador de toda a Ibéria e que tivera a recusa de D. Afonso Henriques em prestar-lhe vassalagem, coisa que outros reis peninsulares não o fizeram, motivo pelo qual, se encontrava a cercar o forte castelo de Guimarães e seus guerreiros, homens destemidos e duros como o granito das pedras do castelo, habituados às lides da guerra, que campeavam pelas terras da antiga Lusitânia a dar peleja à mourama, que as tinha em seu poder. Desde sempre, estes homens endurecidos tinham sentimentos arraigados de individualidade e faziam-no sentir ao rei de Leão e Castela em terras galegas.
 
D. Afonso Henriques, no alto da torre de menagem, mirava preocupado o movimento bélico das tropas leonesas que se implantavam em redor do castelo. Não que tivesse receio da refrega, mas porque as suas condições de suportar o cerco por muito tempo eram cinzentas, como o céu que os cobria. Era tão forte como guerreiro, como hábil nas lides da política e fez jus a essa habilidade. Acercou-se dele, Egas Moniz, seu aio e educador desde criança, longamente conversaram e o que disseram entre eles ficou registado nas pedras graníticas que o tempo fez questão de silenciar.
 
O tempo passava e de surtidas em surtidas mantinha-se o cerco sem sinais de brandura.
 
Certa manhã, as portas do castelo abriram-se e Egas Moniz saiu em direcção à tenda real do soberano de Leão e Castela.
Levava-lhe a promessa, sob a sua palavra, que o infante D. Afonso Henriques lhe prestaria vassalagem como seu soberano e imperador de toda a Ibéria. Aceitou D. Afonso VII a palavra de Egas Moniz, homem mui respeitado e cuja palavra não era duvidosa. Apressou-se a levantar o cerco, que a leoneses e castelhanos também trazia angústias e desejos de saírem daquelas terras que os atormentavam e, intimamente, receavam.
 
Mais forte que a palavra dada, era o anseio independentista de Afonso Henriques e seus barões.
O tempo passava e a promessa ficou guardada no seu registo. Deu Afonso Henriques luta a galegos e vitorioso saiu em Cerneja, consolidando as armas do futuro reino de Portugal.
Não se conformou o velho Egas Moniz, cuja palavra empenhada lhe pesava no respeito. Despiu-se de suas vestes senhoriais e envergou o hábito dos condenados, baraço ao pescoço e descalço, ele e sua família, dirigiram-se a Toledo, capital do reino de Leão e Castela.
 
Recebeu-o Afonso VII no Paço real, semblante carregado e pouco satisfeito com o desenrolar da situação, sentia-se constrangido com o quadro que se lhe deparava e com a mais que provável independência do condado.
 
- Vossa majestade, venho resgatar a palavra e a honra que empenhei aquando do cerco a Guimarães, para isso conto com vossa benevolência e deposito em vossas mãos a minha vida e a de meus filhos e esposa, quão queridos eles me são. Mais do que a vida, me vale a honra.
 
Afonso encolheu-se ainda mais no trono forrado com manto de veludo, diante da nobreza daquele homem de barbas brancas, envelhecido e de cabeça baixa em sinal de respeito.
Ponderou, quem deveria ser castigado era o seu primo Afonso Henriques, que ainda teve a ousadia de lhe dar luta em Cerneja e derrotá-lo, mas a este não era fácil de chegar, era duro o homem. Sensibilizado com a atitude nobre do ancião, libertou-o de seu penhor e permitiu-lhe o regresso ao condado, terra de seus antepassados e de quem se considerava dilecto filho.
 
- Ide bom homem. Tomara a muitos fidalgos que me rodeiam terem a dignidade de vosso gesto, certamente me sentiria mais seguro e apoiado. Contra a corrente do destino não posso lutar, para nada me servem os exércitos. Quem sente o chamado da terra, merece tê-la, a ela pertence.
 
Nuvens passaram sobre Guimarães e sobre Toledo, castelos caíram e castelos se ergueram, os segredos da história ficaram guardados na rude pedra granítica e só o vento a compartilha. Romântica lenda que perdura nas tradições e lendas de Portugal!
 
Alma Lusa