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AQUÁRIUSUL

Sou daqui deste povo que cheira a mar e sabe a fado

AQUÁRIUSUL

Sou daqui deste povo que cheira a mar e sabe a fado

11
Jun09

Tróia: a queda de Tróia

Alma Lusa

Do passado ecoam vozes que clamam por verdade!

Alma Lusa
 
Muitas horas haviam passado. As ruas estavam silenciosas e os fogos extinguiram-se. Todos gozavam o sono reparador no sentimento de liberdade que há tanto tempo lhes faltava. Todos estavam exaustos após tantas excitações. Contudo, o fiel guardião da torre não dormia; velava em frente ao cárcere de Kassandra. Uma tocha semi-apagada ardia no portão, enviando uma claridade pálida por entre as grades da pequena janela. Entretanto, o recinto parecia iluminado por uma luz branca e tranquila. Silêncio de morte pairava sobre a cidade. Ouvia-se apenas o estertor de um grande cão que procurava movimentar-se com grande dificulfdade e o grito agudo e plangente de uma coruja, proveniente do mar. no portão do castelo o enorme animal caiu; estava morto. O sangue escorria de uma profunda ferida no pescoço. De repente fez-se ouvir o tinir de armas. Na cidade? A essa hora?
Fogo apareceu no telhado de uma cocheira. Pássaros e morcegos esvoaçavam assustados. Um braseiro reluziu nopaiol. Passos surdos rondavam o lado exterior das muralhas. Trancas de madeira rangiam; vigas quebravam. Ouvia-se o tropel de cavalos e o tinir de armas.
Em Tróia tudo dormia quando, de repente, o portão do castelo foi aberto com estrondo e os gregos precipitaram-se para o interior do pátio com tochas nas mãos. O único aviso fora breve som da corneta do guardião da torre, sufocada logo em seguida. O assalto teve êxito completo.
-Kassandra tinha razão; foram as últimas palavras do fiel vigia. Aquiles, passando pelo guarda, lançou-se ao encontro dos troianos que saíam das casas, armando-se às pressas. Em poucos instantes a cidade, antes adormecida, transformara-se em um mar de chamas e gritos de desespero. No meio da praça estava o cavalo de madeira. Seu tronco oco que servira de esconderijo aos astutos gregos, exibia uma abertura negra. O encontro dos príncipes foi bárbaro. Os espartanos, chefiados por Menelau, apoderaram-se do templo por acreditar que Helena lá estivesse. Tróia defendia-se desesperadamente.
Aquiles passou pela multidão dos combatentes com seu carro de guerra, esmagando com seus cavalos os que não se afastassem. Saltou do carro em frente de Hektor a quem matou em furiosa luta. Os cavalos iriam passar por cima do corpo dele, mas Aquiles mandou que o amarrassem atrás de seu carro e atravessou o portal em louca disparada. Louco de cólera, em corrida furiosa, Aquiles circundou a cidade. As cruéis deusas da vingança esvoaçavam ao seu redor.
Em um pequeno aposento estavam as damas do castelo, acocoradas. Uma apoiava-se na outra. Estavam aterrorizadas, porém temiam mais a Hekuba que parecia haver enlouquecido. A única consoladora, o amor auxiliador, Kassandra, não estava presente. Priamos apareceu no limiar da porta. Preparou as mulheres para o pior: morte ou cativeiro. O quarto parecia lúgubre e frio.
Um grito, um chamado ecoou pela casa:
-Priamos!
Era a voz de Kassandra. Foi então que ficaram cientes da razão de ninguém ter sabido de seu paradeiro; todavia, não se sentiam envergonhados. A prisão de Kassandra se abrira e ela havia passado por entre os combatentes de corpo erecto, sem que ninguém a tocasse. Como por milagre os muros que ruíram não a feriram, mas libertaram-na. Aproximando-se de Hekuba disse:
-Hektor está morto. Irei com Priamos pedir seu corpo. Páris também morrerá. Tróia será exterminada; todos vós caireis nas mãos do inimigo. Eis tua obra, Hekuba. Lembras-te agora de minhas advertências?
Priamos, curvado pela dor, contemplava a filha e estendendo-lhe a mão, disse-lhe: - vamos!
Tróia estava sombria. Os gregos estavam deixando Tróia. Menelau levou Helena em triunfo na sua nau e muitos o seguiram. Kassandra iria para Micenas. Esta notícia lhe pesava mais que a própria morte, entretanto rezou em silêncio:
“Senhor! Que seja feita a Tua Vontade e não a minha.”
Tróia, a cidade morta, jazia fumegante e coberta de cinzas. A praia estava devastada e encharcada de sangue. Os eternos escondiam suas faces encolerizados. As embarcações deixavam as praias de Tróia e Kassandra enviou um último olhar para o lar paterno em escombros. O vento soprava tristemente nas velas brancas.
Tróia fora destruída e os últimos membros de sua importante estirpe de heróis estavam em mar à mercê das ondas.
Priamos, o nobre pai de cinquenta filhos, entre os quais se destacavam Hektor, Páris e Polydoros, astros entre os filhos de heróis troianos, já não mais existia. Um “ai” eterno à orgulhosa Tróia, à Tróia sucumbida que fora criada com todo o esplendor na graça dos deuses.
A pérola mais preciosa, brilhando na Luz da Pureza, era Kassandra. (…)
 
Excerto do livro “Histórias de Tempos Passados”, editado pela editora Ordem do Graal.

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